Com estoques no limite, nem cessar-fogo alivia pressão no petróleo
Ainda que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenha prorrogado o cessar-fogo na guerra com o Irã, os preços do petróleo operam em alta — embora a um ritmo moderado — e se encaminham para permanecer elevados. A justificativa, na leitura do Goldman Sachs, está no nível cada vez menor dos estoques globais de petróleo, que devem atingir mínimas históricas, mesmo em um cenário otimista.
Os analistas do Goldman observam que, de fato, os preços dos futuros de petróleo se afastaram dos níveis de maior estresse, em torno de US$ 120, embora os fluxos pelo Estreito de Ormuz estejam reduzidos. Três fatores estão por trás dessa melhora pontual, na visão do banco: um menor prêmio de risco; desestocagem antecipando uma esperada reabertura de Ormuz; e moderação nas compras no mercado “spot”.
Mas, ao se debruçar sobre o nível dos estoques de petróleo, o Goldman já começa a emitir sinais de alerta bastante preocupantes sobre a oferta de energia, diante da maior queda dos estoques de petróleo por dia desde 2017 neste mês de abril. Nos cálculos do banco, há uma redução acumulada de 474 milhões de barris de petróleo desde o início da guerra.
E, como os fluxos estimados de petróleo pelo Estreito de Ormuz seguem em apenas 10% do normal e uma recuperação dos fluxos tende a ser gradual, “a queda dos estoques globais deve continuar ao longo de maio ou além”.
Em outras palavras, “o aperto no mercado físico de petróleo continuará exigindo preços muito mais altos para entrega imediata de petróleo, em comparação aos preços para entrega futura, caso os agentes de mercado atribuam alta probabilidade de uma disrupção de curta duração”.
Como mostrou o Intraday, o mercado de petróleo tem sofrido um processo de fragmentação relevante. Embora os preços futuros tenham se distanciado dos US$ 120 e operem, agora, em torno de US$ 99, o preço do petróleo físico se mostra bem mais alto e os spreads entre os futuros mais líquidos e o Brent “spot” seguem bem mais altos que o de costume — um possível sinal de desconexão entre o otimismo dos mercados com um eventual fim da guerra e a realidade.
É nesse sentido que o Goldman emite outro sinal de alerta: a desestocagem não é sustentável, já que os estoques têm um limite natural. Ao mesmo tempo, a reserva global de petróleo armazenado em navios “está próxima de se esgotar”, já que o volume de petróleo que não é alvo de sanções em trânsito marítimo também está próximo das mínimas históricas.
“A partir desse ponto, o principal mecanismo de reequilíbrio, na ausência de recuperação da oferta, passa a ser a destruição de demanda.”
Victor Rezende – Valor Econômico



