Brasil faz ofensiva em Hannover para abrir mercado de biocombustíveis na Europa
A transformação da economia e uma produção industrial mais sustentável ganharam espaço na Feira de Hannover nos últimos anos. Hidrogênio verde e fabricação precisa e sob medida estiveram na agenda central do evento na primeira metade dessa década.
Em 2026, a questão ambiental continua em alta. E, no ano em que o Brasil é o país parceiro em Hannover, a sustentabilidade ganha destaque nas grandes indústrias brasileiras, que contam com espaço privilegiado no encontro deste ano na Alemanha.
É o que se viu nos dois primeiros dias de evento, segunda e terça-feira (21), com ampla movimentação nos estandes das multinacionais brasileiras, além da presença de chefes de governo de Brasil e Alemanha no primeiro dia do evento.
A mineradora Vale, por exemplo, em vez de mostrar tecnologias ou inovações, apostou em destacar a Amazônia, mostrando ações da empresa voltadas a áreas de preservação ambiental nessa região, onde opera há 40 anos.
A catarinense WEG, que tem motores elétricos como carro-chefe, apresenta um portfólio na Alemanha focado na transição energética, em que salienta a eficiência operacional, energias renováveis e mobilidade elétrica.
Mas em meio à crise energética europeia, iniciada pela guerra na Ucrânia e, depois intensificada com o conflito no Irã, os biocombustíveis tiveram os holofotes nos primeiros dias de feira, inclusive com recorrentes citações pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e também pelo chanceler alemão Friedrich Merz.
Do lado brasileiro, o discurso foi ainda reforçado no Encontro Econômico Brasil Alemanha (EEBA), em que o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, ao defender maior intercâmbio comercial pós-acordo União Europeia-Mercosul, fez uma defesa dos biocombustíveis brasileiros, afirmando que há uma visão equivocada na Europa.
O presidente da CNI afirmou que não há problema ambiental ou necessidade de desmatamento para ampliar a produção, considerando as extensas áreas degradadas no Brasil, especialmente no Semiárido, que poderão dar lugar a novos plantios. O presidente Lula acrescentou que a fabricação também não afetará a capacidade do Brasil de produzir ou exportar grãos. “Até porque ninguém come biodiesel ou gasolina”, discursou o presidente, ressaltando que a segurança alimentar é o que um país tem de mais importante.
É crescente no Brasil a fabricação de etanol e biodiesel a partir de culturas como soja e milho. A União Europeia tem restrições à compra de biocombustíveis feitos com matérias-primas que podem servir à alimentação, entraves regulatórios que podem piorar a partir de 2030.
Do lado alemão, Merz elogiou reiteradas vezes a matriz energética renovável do Brasil, bem como a produção de biocombustíveis. Mas não sinalizou nem se comprometeu em comprar o produto brasileiro, embora tenha enaltecido publicamente a parceria da montadora alemã Mercedes-Benz, que testou o uso de biocombustível brasileiro em seu caminhão, iniciativa da empresa gaúcha Be8, que destaca a experiência em seu estande em Hannover.
O presidente da Be8, Erasmo Battistella, falou da relevância de estar na feira alemã neste ano em que o Brasil é o país parceiro. “É muito importante, principalmente pela visibilidade que tivemos na nossa estreia em Hannover, com a presença do governo brasileiro, além do de termos o governo alemão acompanhando o nosso trabalho”, afirmou o executivo em entrevista ao Jornal do Comércio.
Outra empresa alemã que saiu em defesa dos biocombustíveis brasileiros é a Bayer. A subsidiária brasileira, que também tem estande próprio em Hannover, faz coro à tese de que não há um antagonismo entre produção de comida e de combustíveis. A multinacional da Alemanha, por exemplo, é produtora de sementes de milho, amplamente utilizado para a fabricação de etanol no Centro-Oeste do Brasil. Mas ressalta que o País chega a produzir três safras.
Guilherme Kolling – Jornal do Comércio



