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Soja

Mesmo com safra recorde de soja, lucro do produtor cai ao menor nível em 20 anos


Exame - 27 mar 2026 - 10:26

O Brasil deve renovar o recorde na produção de soja em 2025/26, com 179 milhões de toneladas, segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Apesar do desempenho, as margens de lucro devem cair para o menor nível em quase duas décadas, mostra um estudo dos pesquisadores Joana Colussi e Michael Langemeier, da Universidade Purdue, em Illinois, nos Estados Unidos.

O Brasil é o maior produtor global de soja. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), a produção brasileira deve atingir 180 milhões de toneladas em 2025/26.

“Os preços mais baixos da soja, combinados com custos elevados e prêmios de exportação mais fracos, estão comprimindo a rentabilidade dos produtores brasileiros”, afirmam os autores.

Os prêmios da soja são um ajuste aplicado ao preço internacional negociado na Bolsa de Chicago (CBOT), referência global para o grão, para refletir as condições do mercado local.

Eles indicam quanto a soja brasileira está sendo negociada acima ou abaixo dessa referência, considerando fatores como oferta e demanda, custos logísticos, câmbio e o apetite de importadores, como a China.

Na prática, é esse prêmio — positivo ou negativo — que ajuda a definir o preço final recebido pelo produtor, podendo até anular movimentos de alta ou queda em Chicago, dependendo do cenário interno.

A combinação desses fatores tem pressionado de forma significativa o resultado no campo. Esse cenário, segundo o estudo, deve marcar uma inflexão na trajetória de crescimento contínuo da soja no Brasil, que se expande de forma consistente desde o início dos anos 2000.

Os dados analisados indicam que os custos de produção da soja no Mato Grosso, um dos principais estados produtores do país, subiram de cerca de US$ 368 por hectare na safra 2009/10 para aproximadamente US$ 559 em 2025/26, com pico de US$ 602 em 2022/23.

Ao mesmo tempo, a receita bruta apresentou forte volatilidade, variando entre US$ 400 e quase US$ 800 por hectare ao longo do período.

“A elevação recente dos custos está diretamente ligada ao aumento dos preços dos fertilizantes no mercado internacional”, afirmam Colussi e Langemeier. Como o Brasil importa cerca de 85% desses insumos, a valorização do dólar ampliou ainda mais a pressão sobre os produtores.

No Brasil, as entregas de fertilizantes somaram 49,11 milhões de toneladas em 2025, alta de 7,7% em relação ao ano anterior. Desse total, 43,32 milhões de toneladas foram importadas, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA).

As culturas de soja e milho, somadas à cana-de-açúcar, respondem por 73% do consumo total de fertilizantes no país.
Por outro lado, as receitas seguem o comportamento dos preços internacionais da soja. “A volatilidade da receita reflete principalmente as oscilações do mercado global da commodity”, dizem os pesquisadores, ao lembrar os picos registrados durante a pandemia e os impactos da guerra no Leste Europeu, em 2022.

Soja brasileira

A análise mostra que o lucro da soja no Mato Grosso pode cair para cerca de US$ 10 por hectare na safra 2025/26 — o menor nível em quase 20 anos. Após atingir um pico de aproximadamente US$ 440 por hectare em 2020/21, a rentabilidade vem recuando de forma consistente.

“A queda recente reflete a combinação de preços internacionais mais baixos com custos que permanecem elevados”, afirmam os autores.

Esse movimento tem reduzido drasticamente as margens dos produtores. Além disso, fatores como prêmios de exportação mais fracos, taxa de câmbio menos favorável e mudanças no comércio global contribuem para pressionar ainda mais os ganhos.

Em 2025, um movimento atípico elevou temporariamente os prêmios nos portos brasileiros, reflexo da guerra tarifária entre os Estados Unidos e China.

“Quando a China suspendeu importações de soja dos Estados Unidos, os prêmios no Brasil subiram significativamente”, dizem os pesquisadores. Sem esse suporte, as margens teriam sido ainda menores.

Mesmo diante desse cenário, a produção brasileira deve atingir cerca de 179 milhões de toneladas, segundo a Conab, com estimativas de casas de análise chegando a 181 milhões de toneladas. A área plantada deve alcançar cerca de 48,6 milhões de hectares, com produtividade recorde.

O crescimento da produção de soja nas últimas duas décadas foi impulsionado tanto pela expansão da área quanto por ganhos de produtividade. “A expansão foi sustentada por períodos de alta rentabilidade e forte demanda internacional, especialmente da China”, dizem os pesquisadores.

Agora, a tendência é de desaceleração desse ritmo de crescimento. “Margens mais apertadas devem limitar a capacidade e o apetite dos produtores para expandir a área cultivada”, afirmam.

Além disso, há sinais de moderação na demanda global. “O crescimento da demanda, inclusive na China, pode começar a desacelerar, reduzindo o suporte aos preços internacionais”, apontam.

O estudo indica que o Brasil entra em uma nova fase para a soja. Diferentemente dos anos anteriores, em que produção recorde significava alta rentabilidade, o cenário atual combina volume elevado com margens comprimidas.

“Produzir mais já não significa necessariamente ganhar mais”, afirmam Colussi e Langemeier.

César H. S. Rezende – Exame