Com novo líder em grãos, ADM quer mais peso da América do Sul no negócio
Com sete plantas de processamento de soja, dois terminais portuários, quase 30 silos, entre outros ativos no Brasil, o país e a América do Sul ainda estão “sub-representados” nos negócios da ADM, uma das maiores tradings de commodities agrícolas do mundo, disse o presidente global de Serviços Agrícolas e Oleaginosas, Greg Morris. Ampliar a representatividade sul-americana e a presença da ADM está entre as missões de John Grossmann, novo presidente da divisão para a região, que assume a posição até então ocupada por Luciano Botelho, que vai se aposentar.
Diferentemente do papel desempenhado pelo Brasil nas últimas décadas, majoritariamente de fornecedor de grãos para o exterior, desta vez o país atrai pelas oportunidades no mercado interno, disseram os executivos em entrevista exclusiva ao Valor.
Aumento do uso de biocombustíveis como biodiesel — produzido com óleo de soja — com impulso da lei que amplia misturas de biocombustíveis, assim como demanda doméstica e internacional por carnes, produzidas com grãos e co-produtos, estão no foco de Grossmann.
A escolha do executivo — brasileiro, apesar do nome sugerir o contrário —, que nos últimos quatro anos comandou a área de processamento e grãos na América do Norte, a mais relevante para a companhia, é vista como sinal do peso dado pela ADM, no momento, à América do Sul.
“Quando falo de a América do Sul estar sub-representada, me refiro ao tamanho e à escala das operações que temos na América do Norte. Em uma região que cresce em bom ritmo em produção agrícola e pecuária e capacidade de esmagamento, podemos fazer mais”, afirmou Morris. “Com sua experiência, John é a pessoa ideal para refletir sobre o que mais podemos fazer.”
Entre as frentes onde a ADM deve avançar está justamente a capacidade de processamento de grãos. Há planos de ampliar as unidades já existentes, mas novas parcerias como a firmada recentemente com a Aliança Agrícola do Cerrado, que processará grãos da ADM em duas de suas unidades, seguem no radar.
Em 2025, apenas no Brasil, a ADM ampliou sua capacidade de processamento de soja em 400 mil toneladas, nas unidades de Campo Grande (MS), Porto Franco (MA) — estas duas concluídas no ano passado — e Uberlândia (MG), a ser finalizada em junho. A título de comparação, a ADM possui, nos Estados Unidos, 83 unidades de processamento de oleaginosas.
Projeção
Para 2026, a empresa prevê ampliar investimentos globais para a faixa de US$ 1,3 bilhão a US$ 1,5 bilhão, acima do valor US$ 1,2 bilhão de 2025, segundo seu mais recente comunicado de resultados. Questionado sobre incremento também no Brasil, Grossmann confirmou, para “as oportunidades certas”.
“O Brasil tem oportunidades claras para ampliarmos capacidade de processamento e, eventualmente, ativos logísticos. Para as oportunidades certas, com crescimento sustentável e investimentos que façam sentido, a resposta é sim”, disse. “Temos expandido algumas plantas, certamente temos planos de fazer um pouco mais disso no futuro.”
Uma combinação de demanda doméstica crescente por produtos que a ADM já fabrica e custos tornam o Brasil “muito competitivo” no momento em relação a outros países onde a empresa atua, segundo Morris. Do lado da demanda, há rebanhos de bovinos e plantéis de aves e suínos que consomem farelo de soja. Há também o uso crescente de biodiesel no país, cuja mistura ao diesel está em 15%.
Há ainda a competitividade brasileira em relação a outros países onde a ADM atua, disseram ambos. Morris mencionou a atratividade em custos para operar plantas, construir novos projetos e inclusive na qualidade dos “talentos”. O número cada vez maior de produtores “jovens” é outra oportunidade para novos modelos de negócios e digitalização, acrescentou Grossmann.
“Existem profissionais altamente qualificados em funções de engenharia, eletricistas etc. Também vemos uma força de trabalho muito estável. Nos Estados Unidos, temos rotatividade em algumas fábricas”, disse Morris.
O ano de 2026 se mostra promissor, após o lucro global de processamento de grãos ter caído mais de cinco vezes em 2025, para US$ 159 milhões. No ano passado, a receita global da ADM também recuou, mais de 6%, para
US$ 80,269 bilhões. Neste ano, são esperadas regras para biocombustíveis nos Estados Unidos e demanda global firme por farelo de soja para alimentação animal.
No Brasil, após o recorde de processamento de soja em 2025, com mais de 5,4 milhões de toneladas, um novo recorde, “muito provavelmente”, deve ser batido neste ano, disse Grossmann.
Clarice Couto – Globo Rural