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Soja

Margens apertadas desafiam a soja


Valor - 27 jul 2026 - 10:20

O cenário atual para os produtores de soja no Brasil reúne um conjunto de fatores pouco favorável para a safra 2026/2027, que vem demandando cautela por parte do mercado. Aumento nos custos de insumos, crédito mais caro e restrito, preços internos em queda e ameaça do super El Niño no segundo semestre estão entre os principais desafios que os produtores têm pela frente. Combinados, levam a margens mais apertadas, ameaçando a lucratividade do setor e apontando para um futuro desafiador, a começar pela expectativa de redução no ritmo dos investimentos em tecnologia e de queda da produtividade.

O cenário preocupa especialistas e produtores, sobretudo considerando a liderança brasileira no mercado global de soja. O Brasil exibirá uma safra 2025/2026 de 180,3 milhões de toneladas, conforme estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), novo recorde de exportação (projetada em 117,5 milhões de toneladas) e do esmagamento do grão, sustentado pela demanda por biodiesel. Mas a possível redução dos investimentos deverá afetar os resultados da produção nos próximos anos, visto que os bons desempenhos das duas últimas safras refletiram aportes de vulto em tecnologia e aprimoramento do cultivo realizados nos anos anteriores.

A conjuntura favorável dos últimos anos levou à expansão da oferta do grão no mercado global, pressionando para baixo a sua cotação. Aliado a isso, as guerras da Ucrânia e no Estreito de Ormuz aumentaram o custo de insumos, como os fertilizantes.

"Dependendo da região, alguns produtores até trabalharam no vermelho nas duas últimas safras. Foi a primeira grande crise no setor de soja. Desde o início do século XXI, não víamos margens tão achatadas. Essa está sendo a grande crise de lucratividade do setor", diz Felipe Junqueira, analista de mercado da Scot Consultoria, especializada no setor agropecuário. É verdade que o mercado vem passando por alguma recuperação, mas nada, a seu ver, que se compare ao cenário das safras de 2021 e de 2022. "Chegamos a ver soja a US$ 14,00 e US$ 15,00 por bushel (unidade de medida usada no mercado internacional), enquanto hoje está a US$ 11,30 por bushel, quando nas máximas."

Dados apresentados pelo produtor Andrey Rodrigues, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja e Milho de São Paulo (Aprosoja-SP), reforçam a percepção de um cenário classificado como desafiador pelo setor. "Tínhamos uma saca de soja, há quatro anos, cotada em R$ 180 reais, depois caiu para R$ 140 e neste ano está em R$ 115, em São Paulo. No Brasil, vemos lugares com saca a R$ 100", diz. O retrato atual reflete recentes problemas relativos a câmbio, crédito escasso e caro, custos e choque de oferta.

"Um produtor que investiu R$ 180 mil em um determinado equipamento com a saca da soja valendo R$ 180 precisaria vender mil sacas para quitar sua dívida naquela ocasião. Agora, a um preço de R$ 115 a saca, ele precisará vender 1.565 para arcar com o mesmo compromisso", exemplifica. Com esse cenário, acredita, o produtor começa a investir menos em adubo, máquinas, equipamentos e em tecnologia, aumentando a probabilidade de queda na produção. "Isso desenha um cenário de menos soja no futuro. Muitos produtores começam a diversificar sua produção. Tenho visto acontecer a migração gradativa de soja para outras lavouras e neste ano será maior. Estamos vivendo um cenário complexo", diz Rodrigues.

A boa safra em andamento no Brasil e nos Estados Unidos, os dois maiores produtores globais, tira do radar projeções de alta de preços para a próxima safra, segundo o especialista Lucílio Alves, doutor em economia aplicada (Esalq/USP) e pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). "As projeções para o primeiro semestre de 2027 estão em patamares menores que os atuais. Até a segunda semana de junho, a cotação para julho deste ano estava em US$ 445,00 por tonelada no porto de Paranaguá. Para março de 2027, o valor é de US$ 427,00. A queda de 4% não traz um cenário de expectativa de mudança de preço. O grande jogo que definirá o valor é a taxa de câmbio para o ano que vem", diz Alves.

A cotação do dólar em relação ao real tem impacto direto sobre a lucratividade do setor — e, além dele, os fertilizantes, que "dobraram de preços neste ano", segundo Alves. Cerca de 80% a 85% desses insumos são importados. A relação de troca entre soja e fertilizantes atingiu em 2026 os piores patamares da série histórica, de acordo com a consultoria Scot. Hoje, uma tonelada de soja compra apenas 0,44 tonelada do adubo MAP; em 2020, comprava 1,13 tonelada.

O desafio está em equilibrar a estrutura de custos de produção da soja, meta agravada pelas instabilidades no mercado internacional fornecedor de fertilizantes. A guerra no Irã e as incertezas logísticas dela decorrentes, como a da passagem pelo Estreito de Ormuz, tornaram pouco provável uma queda nos preços dos insumos, pelo menos a curto prazo.

Para 2027, o mercado futuro da soja precifica estabilidade em torno de US$ 26,00 por saca, insuficiente, de acordo com Junqueira, para compensar os custos atuais dos insumos. Aliado a esse cenário, a projeção é de depreciação do câmbio, comprimindo mais a margem na próxima safra.

Manter a competitividade da soja brasileira é o item número 1 da agenda do setor dentro desse novo contexto. "A demanda no mundo continua forte", diz o produtor Azael Pizzolato Neto, diretor da Aprosoja-SP. Por essa razão, questões restritivas de ordem interna merecem prioridade nas soluções. Por exemplo, segundo ele, o da dificuldade de acesso a financiamento. "O preço de hoje impede uma cultura de alto investimento. O crédito está inviabilizando a atividade agrícola, com taxa de juros da ordem de 14%. O Plano Safra se torna cada vez mais distante da atividade do produtor, a inadimplência está em níveis recordes, com número recorde de recuperações judiciais. Esse é o cenário para a próxima safra. Imaginávamos que o custo acompanharia a queda do preço da soja, mas com a guerra do Irã, os preços do petróleo e dos fertilizantes explodiram", diz Pizzolato Neto.

Diante disso, a saída é ampliar o uso de tecnologias que reduzem a dependência de insumos sintéticos, o que já vem ocorrendo. O avanço da agricultura de precisão tem potencial de reduzir em 15% a 29% o uso de fertilizantes e defensivos. Junqueira observa que o mercado de bioinsumos cresceu 28% em área tratada em 2025, movimentando R$ 6,2 bilhões. Há, ainda, o risco de subnutrição das lavouras, pela redução voluntária de doses de fertilizantes sintéticos, que permanece como o principal ponto de atenção para a produtividade da safra 2026/2027.

Com relação à ameaça trazida pelo El Niño, uma das alternativas, a seu ver, é a de adotar variedade de ciclos mais longos, uma vez que a permanência da soja na terra por mais tempo aumenta sua capacidade de absorção das intempéries climáticas. A decisão, no entanto, tem custos. Ao alongar o tempo de colheita, o produtor estará automaticamente prejudicando a safrinha de milho, já que o ciclo da soja avançaria para um período que seria naturalmente da segunda safra de milho. "Se isso ocorrer, haverá impacto de produtividade e até redução da área plantada. Esse cenário não permite que o produtor adote todas as tecnologias que gostaria de dispor para enfrentar um fenômeno como o El Niño", diz Pizzolato Neto. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) estimou redução de 5,2% para a safra de soja 2025/2026, que ficaria em 48,88 milhões de toneladas no Estado.

A mudança de cenário é pouco provável, na avaliação do setor. A menos, segundo Luiz Fernando Roque, especialista de grãos da consultoria Hedgepoint, que os agricultores sejam surpreendidos. "Um problema produtivo faria o preço subir, melhorando a margem do produtor. Só que para a safra 2026/2027, plantada em setembro, a tendência não é muito favorável, porque os preços estão pressionados e os custos devem continuar subindo por causa da guerra no Oriente Médio", diz Roque.

A melhora dos preços no mercado internacional no último ano veio com o aumento da demanda por biocombustíveis nos Estados Unidos, o que não se traduziu em melhora das margens no Brasil, também em função da questão cambial. O futuro da cotação da soja no mercado internacional, de acordo com ele, será ditado também pelo volume da safra norte-americana que será colhida em setembro e pelo desempenho da safra no Brasil e na Argentina a ser plantada também em setembro.

Roque avalia que o mercado de biodiesel pode trazer efeitos positivos para o preço da soja, mas observa que o panorama difere daquele visto no etanol de milho. "Mesmo aumentando a mistura obrigatória do biodiesel ao diesel dos atuais 15% para 17% para cada 100 litros de combustível nos postos, o setor não tem um potencial tão grande como o que vemos no milho, com o etanol", diz. Na soja, a seu ver, o movimento será um pouco mais lento, embora considere um vetor importante de crescimento para o mercado.

Seja como for, a expansão do biodiesel poderá mudar a estrutura de preços da soja no Brasil e reduzir a dependência das exportações, principal item do faturamento do setor. "Acho que o aumento do uso do biodiesel pode garantir a sustentabilidade da agricultura brasileira, dando mais independência. Só vejo benefícios para expandir; teremos oportunidade de aumentar a demanda de soja e de outros insumos que ajudarão a melhorar os preços", diz Pizzolato Neto.

Monica Magnavita - Valor Econômico

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