Safra de soja deve ter maior custo da história em Goiás e exigirá mais eficiência do produtor
A safra 2026/27 de soja vai exigir mais eficiência e planejamento dos agricultores de Goiás. Eles planejam o plantio depois de uma frustração na colheita da segunda safra de milho e de terminarem o ciclo sem sobras de caixa.
Não há expectativa de queda na área a ser semeada, mas pode haver redução de pacotes tecnológicos. Análise preliminar da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) aponta para um incremento de até cinco sacas de soja por hectare a depender da região do Estado.
Em Rio Verde, município do sudoeste goiano com quase 500 mil hectares de lavouras de soja no verão, o custo para cultivo da variedade Intacta passará de 70,8 sacas por hectare para 75,5 sacas por hectare.
Lucas Lopes, assessor técnico da Faeg, diz que os custos podem ser os maiores da história no Estado, a depender do que o produtor colocar de tecnologia no campo. Os valores devem superar a produtividade média das últimas duas safras, de 69 e 65 sacas por hectare, respectivamente.
O cálculo soma os custos operacionais, de remuneração do capital investido e de oportunidade de uso da terra. Só o operacional para a safra 2026/27 está próximo de 55 sacas por hectare.
Segundo Lopes, a alta será puxada pelo encarecimento dos fertilizantes e do óleo diesel, que aumenta o gasto das fazendas e do transporte de insumos e grãos. “Os custos de produção do agricultor vêm aumentando ano a ano. Na próxima safra, para a soja, é algo que preocupa bastante. Dentro da série histórica, pode ser o mais alto que o produtor já teve”, relata Lopes.
O ritmo de compra dos insumos está mais lento. Nos fertilizantes, chegou a 75% da demanda na metade de agosto. Nos defensivos, 55%. “O produtor tem deixado para comprar na boca da safra, a não ser quem faz pool de compra e consegue antecipar, pois tem poder de barganha maior”, resume.
O cálculo dos custos não considera os gastos com arrendamento e mostra o tamanho do desafio do agricultor para a safra 2026/27. Esse item também subiu e chega a custar cerca de 20 sacas por hectare em algumas regiões.
A expectativa da Faeg é que muitos produtores deverão devolver áreas. “Não tem margem para erro”, diz Dourivan Cruvinel, presidente-executivo da Cooperativa Agroindustrial do Sudoeste Goiano (Comigo).
Ele relata que a inflação dos arrendamentos tem “expulsado” pequenos agricultores. Produtores têm ido até outros Estados, como Tocantins e Piauí, à procura de novas áreas, mais baratas.
Não há expectativa de redução de área no Estado, mas o clima e os custos vão frear a expansão prevista para a região do Vale do Araguaia, próxima à divisa com Mato Grosso.
O potencial lá é de conversão de quatro milhões de hectares de pastagens degradadas em lavouras, comenta Lucas Lopes, da Faeg. Em 2025/26, os produtores goianos plantaram 5,1 milhões de hectares de soja.
Produtor não deve se alavancar nem plantar na primeira chuva
A orientação da entidade, por ora, é a de não semear nas primeiras chuvas e aguardar uma estabilidade maior. Para quem perder a janela ideal de cultivo na soja, o ideal é abrir mão do risco na segunda safra e optar por uma cultura em que possa ter mais margem, como sorgo ou girassol.
Everaldo Pereira, presidente do sindicato rural de Rio Verde, diz acreditar que os produtores vão apostar na reserva de nutrientes criada ao longo dos anos para economizar. “A tendência de produtividade menor na próxima safra é evidente. O cenário é preocupante, pois pode haver quebra por conta do clima mais seco”, admite.
O município, o principal da região sudoeste goiano e o segundo mais rico do Estado, cultiva 480 mil hectares de soja e cerca de 90% dessa área é sucedida por milho, sorgo e girassol. “Área consolidada não diminui. O produtor planta com o cheiro de adubo e vê o que vai colher”, disse o engenheiro agrônomo e consultor de mercado na região, Enio Fernandes.
Charles Peeters, vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja, Milho e Outros Grãos Agrícolas de Goiás (Aprosoja-GO), diz que o agricultor precisa se ater ao custo para planejar a safra 2026/7. E planejar as despesas financeiras e os gastos fora da atividade. “A recomendação é não se alavancar, não tomar novos investimentos e fazer mais com menos”, relatou.
Rafael Walendorff – Globo Rural


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