Estoques de petróleo põem mundo em alerta
À medida que a guerra entre EUA e Irã se prolonga sem um fim à vista, operadores do mercado de petróleo e governos enfrentam uma questão crucial: os estoques globais de petróleo são suficientes para compensar o que pode se tornar a maior interrupção de oferta já registrada?
A resposta está longe de ser clara, pois depende não apenas de quanto petróleo permanece armazenado, mas também de quanto dele pode ser realmente liberado. A duração das reservas só pode ser determinada ao se calcular a dimensão da atual interrupção.
O chefe da estatal Saudi Aramco, Amin H. Nasser, acredita que o mundo perdeu 2,6 bilhões de barris de petróleo desde o início da guerra, o que faria desta a maior interrupção de oferta da história em termos acumulados, excetuando-se a Revolução Iraniana de 1979, segundo cálculos da Reuters.
Isso equivale a expressivos 25 dias de consumo mundial, com base na demanda global de petróleo de antes do início da guerra, em fevereiro, de 103 milhões de barris por dia.
No entanto, a China reduziu a demanda nos últimos meses, o que significa que o mundo está consumindo menos petróleo.
A maioria dos analistas acredita que o déficit diário de oferta para atender à demanda global é de 5 milhões de barris por dia, embora a Aramco diga que o mundo está perdendo diariamente 11 milhões de barris provenientes do Golfo Pérsico.
A lacuna pode ter aumentado em julho, depois que drones ucranianos interromperam o oleoduto CPC, do Cazaquistão, que transportava 1,8 milhão de barris por dia.
A Agência Internacional de Energia (AIE), que coordena os países ocidentais, anunciou em março a liberação de 400 milhões de barris de reservas de emergência e afirma que a economia global ainda dispõe de estoques substanciais. A entidade foi criada em 1974 em resposta a outra grande crise do petróleo -- o embargo árabe.
Os estoques da AIE são compostos por reservas mantidas pelos governos e estoques comercias. Juntos, somam 1,5 bilhão de barris, o suficiente para cobrir por 300 dias o atual déficit estimado de oferta, de 5 milhões de barris por dia.
No entanto, a AIE pode não ordenar a liberação de estoques comerciais, como os mantidos por refinarias, por questões operacionais.
Isso deixa apenas 0,9 bilhão de barris em reservas governamentais - o suficiente para cobrir o déficit de oferta por 180 dias.
A AIE afirmou estar pronta para liberar mais petróleo se a crise piorar, mas não divulga a composição exata dos estoques.
Das reservas governamentais restantes, um terço está nos EUA. Os estoques de petróleo da Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA caíram ao nível mais baixo desde janeiro de 1983.
O Escritório de Responsabilidade Governamental dos EUA alertou em maio que a infraestrutura da Reserva Estratégica de Petróleo está se deteriorando rapidamente e que um quarto das reservas já não está disponível.
Se os EUA tiverem apenas 200 milhões de barris acessíveis restantes na Reserva Estratégica de Petróleo, eles poderão cobrir somente 40 dias do atual déficit de oferta.
Uma nova liberação da AIE é improvável, pois muitos países têm estoques limitados restantes, disse Christian Egeland, da Energy Aspects.
A redução dos estoques diminuiu a proteção contra choques de oferta, deixando o mercado de petróleo vulnerável a fortes altas de preços, disse Hamad Hussain, da Capital Economics. Os estoques globais de diesel e combustível de aviação estão atualmente na parte inferior de sua faixa dos últimos cinco anos, segundo o Morgan Stanley.
As guerras danificaram refinarias do Oriente Médio e da Rússia e atingiram especialmente o diesel e o combustível de aviação, disse Survo Sarkar, do DBS Bank.
Os estoques globais totais de petróleo, incluindo todos os tipos - como estoques comerciais, a Reserva Estratégica dos EUA, os estoques chineses e as cargas em trânsito marítimo - parecem bastante confortáveis, segundo a AIE.
Mas uma grande parcela deles não constitui uma reserva real de oferta, pois os estoques em trânsito marítimo, por exemplo, frequentemente representam petróleo e combustíveis já vendidos.
A China não divulga suas reservas, mas A Energy Aspects estima que Pequim detinha quase 1,7 bilhão de barris de petróleo bruto em julho. No entanto, as estimativas de outras consultorias variam entre 1 bilhão e 1,7 bilhão de barris.
Com uma reserva de 1,7 bilhão de barris, a China poderia cobrir por quase um ano suas importações anteriores à guerra através do Estreito de Ormuz - cerca de 5,5 milhões de barris por dia -, um dos níveis mais confortáveis entre as grandes economias, ao lado do Japão.
Anushree Mukherjee – Reuters


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