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Petróleo e soja elevam otimismo para superávit comercial


Valor Econômico - 17 ago 2026 - 08:56

O superávit da balança comercial brasileira este ano deve superar o resultado do ano passado, com contribuição maior para o setor externo. As projeções de mercado, que começaram o ano muito próximas ao resultado de 2025, foram elevadas em US$ 10 bilhões. O aumento da estimativa veio principalmente por uma exportação maior que a esperada inicialmente, puxada pelo bom desempenho da safra de soja, que pode bater recorde de volume exportado, e do aumento das cotações de petróleo, sob influência da guerra no Oriente Médio.

No ano passado, o superávit alcançou US$ 68,1 bilhões. Para este ano, a mediana das projeções de mercado coletadas pelo Focus, do Banco Central (BC), é atualmente de US$ 76,9 bilhões, bem superior aos US$ 66 bilhões da estimativa de janeiro e acima também dos US$ 70 bilhões da previsão ao fim de março, um mês após deflagrado o conflito que levou à disputa pelo controle do estreito de Ormuz.

Mais otimista, a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) revisou sua estimativa anterior de superávit de US$ 68,2 bilhões para US$ 94,1 bilhões. A estimativa oficial do governo, divulgada em julho, também foi revisada em magnitude comparável: saltou para US$ 90 bilhões, ante US$ 72,1 bilhões estimados em divulgação de três meses antes.

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A política tarifária do presidente americano, Donald Trump, fez os Estados Unidos perderem fatia na exportação brasileira, movimento que deve continuar neste ano, mas sem efeito macroeconômico de maior impacto para o resultado da balança comercial brasileira, analisam os especialistas. O El Niño já começa a entrar no radar de quem olha o comércio exterior, mas a avaliação é que os efeitos maiores virão mais para a safra agrícola de 2027. O acordo entre União Europeia e Mercosul também deve ter efeitos acumulados mais claros ao longo dos próximos anos.

Com projeção mais alinhada à do mercado, a XP estima superávit de US$ 78,7 bilhões para este ano, no critério de cálculo do Mdic. Se efetivado, o resultado ficará mais de US$ 10 bilhões acima do realizado em 2025. Luíza Pinese, economista da XP, ressalta que o saldo comercial acumulado em 12 meses até julho atingiu US$ 80 bilhões, acima do resultado de 2025.

No acumulado dos sete meses deste ano, observa Pinese, as exportações cresceram 11%, puxadas por preços e volumes maiores de commodities, como petróleo, soja e carne bovina. As importações também avançaram, mas a uma taxa menor, de 6%, com contribuição relevante de veículos, refletindo antecipação de compras diante do aumento da alíquota sobre elétricos em julho, além de medicamentos, óleos combustíveis, máquinas e semicondutores.

Alguns produtos também tiveram influência de alta de preços médios do petróleo, diz André Valério, economista do Inter. “De modo geral, petróleo e soja este ano estão performando melhor do que o esperado, embora haja alguns fatores que podem ainda ter impacto na balança no restante do ano”, diz. O banco projeta atualmente superávit de US$ 86 bilhões para 2026, US$ 10 bilhões a mais que estimava em junho. Antes da projeção atual, o banco já havia elevado, em julho, a estimativa para US$ 82 bilhões.
Entre os fatores de risco, Valério menciona o El Niño, que pode reduzir volumes de produtos agrícolas, mas combinada com pressão altista sobre preços, o que deve resultar em impacto líquido menor. “Há também a maior restrição para exportação de carne bovina, tanto da União Europeia quanto da China, que colocou uma cota que já estouramos.”

A projeção da XP de superávit para 2026, diz Pinese, era maior que a atual, de US$ 85 bilhões, com base numa estimativa de preço médio de barril a US$ 85 no segundo semestre deste ano. A premissa para cotação do barril de petróleo, porém, caiu para US$ 75, o que levou a uma menor projeção para o resultado da balança comercial, explica. A nova estimativa de preço para o barril do Brent, diz a economista, embute “alguma moderação do conflito” no Oriente Médio ao longo da segunda metade deste ano. Mesmo sem uma expectativa de data para a normalização do fluxo no estreito de Ormuz, diz ela, o cenário trabalha com a hipótese de que os prêmios de risco atualmente embutidos no preço se dissipem gradualmente.

“Confirmada essa trajetória, a contribuição do petróleo para o saldo comercial permanece positiva ao longo de todo o ano de 2026, uma vez que o preço médio anual seguirá acima do observado em 2025.” A magnitude, no entanto, será menor na segunda metade do ano do que no trimestre de abril a junho, quando as cotações da commodity chegaram a atingir US$ 120 por barril, observa Pinese.

Relatório da equipe de macroeconomia da XP destaca que, após três anos de queda, os preços do petróleo exportado devem contribuir positivamente para o superávit comercial em 2026. Em 2023, 2024 e 2025 a cotação da commodity embarcada caiu 15%, 4% e 10%, nessa ordem, sempre ante o ano anterior. A projeção da XP é que em 2026 o preço suba 22%. O aumento de volume é calculado em 7%, o que levaria a uma exportação de petróleo de US$ 58 bilhões neste ano. Para 2027 a corretora estima nova queda de preço, de 5%. O aumento de 7% estimado para o volume resultaria em embarque de US$ 59 bilhões da commodity.

Petróleo, soja e minério de ferro são os três itens mais exportados pelo Brasil. O trio de commodities pode bater recorde no valor embarcado em 2026, pelas projeções da AEB. A estimativa é que os três itens somem US$ 146,4 bilhões em vendas externas neste ano ante US$ 117,1 bilhões de 2025. Caso a projeção se realize, a fatia das três commodities na exportação total estimada para este ano chega a 38%, superior aos 33,6% realizados em 2025. “Pela primeira vez na história do comércio exterior brasileiro, em 2026, dois produtos, soja em grão e petróleo bruto, poderão ultrapassar o montante de US$ 50 bilhões em exportações cada um, e estarão lutando entre si para assumir o posto de maior exportador do Brasil, que deve ficar com o petróleo”, diz Castro.

O trio de commodities deve contribuir para o crescimento da exportação, de onde se espera a maior ajuda para o aumento de saldo comercial este ano. Pelas estimativas de Castro, a receita de embarques deve crescer neste ano 10,6%, e o desembolso com importações, 4%, sempre ante 2025.

Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da BMJ, observa que, puxada principalmente por petróleo, as exportações da indústria extrativa cresceram 21,3% de janeiro a julho ante igual período de 2025, fazendo o setor aumentar a participação de 22,6% dos embarques no ano passado para 24,9% este ano, considerando os mesmos sete meses. As vendas externas da indústria de transformação também subiram, em 6,3%, mas mesmo assim, nota Barral, houve perda de participação, de 53,5% para 51,5%, na mesma comparação. “Não tem problema o Brasil exportar commodities. O problema é se concentrar muito em commodities, o que torna o resultado comercial brasileiro cada vez mais vulnerável em relação à oscilação de preços que estão fora do controle do país.”

Ao mesmo tempo, diz Barral, os embarques brasileiros estão cada vez mais dependentes da China, cuja fatia na exportação brasileira subiu de 29,2% de janeiro a julho de 2025 para 31,6% em iguais meses deste ano. Sob impacto de tarifas, a participação dos EUA caiu de 12,1% para 9,6% no período.

Para Pinese, a fatia chinesa nos embarques brasileiros deve seguir aumentando, mas em ritmo mais moderado do que o visto no começo deste ano. “Esperamos que o ganho de participação da China persista, sobretudo em função da continuidade das fricções comerciais entre Pequim e Washington, que favorecem fornecedores alternativos como o Brasil. Trata-se de movimento que se observa desde o primeiro governo Trump, quando a China passou a ampliar as compras de soja brasileira.”

As exportações para a Argentina, tradicional destino de manufaturados brasileiros e terceiro maior mercado externo do Brasil, também caíram este ano, destaca Castro. O recuo de janeiro a julho foi de 18,6% frente a igual período de 2025. Os recentes atritos diplomáticos entre Brasil e Argentina não devem resultar em medidas comerciais, mas também não favorecem parcerias estratégias que poderiam estimular as trocas bilaterais, avalia Castro.

Marta Watanabe – Valor Econômico