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[Opinião] Petróleo pressiona inflação energética na América Latina


CNN Brasil - 25 ago 2026 - 09:41

Por Pedro Côrtes*

Um barril de Brent acima de US$ 90 não combina com a ideia de que o choque energético ficou para trás. Na América Latina, os números ajudam a explicar por quê.

Em junho, a inflação energética anual da região chegou a 8,03%, diante de 4,49% da inflação geral. Em março, estava em apenas 2,12%. Em três meses, avançou quase seis pontos percentuais, refletindo principalmente os efeitos das tensões no Oriente Médio sobre petróleo, refino e transporte.

Os combustíveis concentram boa parte dessa pressão. Segundo a Organização Latino-americana e Caribenha de Energia (OLACDE), a gasolina passou, em média, de US$ 1,19 por litro em fevereiro para US$ 1,38 em junho.

O diesel subiu de US$ 1,12 para US$ 1,30. Nas duas primeiras semanas de agosto, ambos permaneciam nesses patamares.

Isso ocorreu mesmo durante uma acomodação temporária do petróleo em relação às máximas do primeiro semestre. Essa janela de alívio, porém, estreitou-se novamente: nesta segunda-feira, 24, o Brent fechou a US$ 92,17 por barril.

O preço na bomba não acompanha o petróleo de maneira automática. Estoques adquiridos anteriormente, refino, transporte, seguros, impostos, câmbio e mecanismos de estabilização criam defasagens. O barril é uma referência importante, mas não determina sozinho quanto famílias e empresas pagam pela energia.

Para a América Latina, o diesel torna essa diferença especialmente relevante. Ele atravessa o frete rodoviário, a agricultura, a mineração e a indústria. Se permanece caro, aumenta a possibilidade de transmissão para alimentos, mercadorias e serviços, transformando um choque externo de energia em pressão mais disseminada sobre os preços.

O Brasil oferece um contraponto importante. O IPCA subiu 0,16% em junho e acumulou 4,64% em 12 meses. No próprio mês, os combustíveis recuaram 0,48%, com quedas de 1,19% no diesel e 0,12% na gasolina. O choque regional, portanto, não chegou ao consumidor brasileiro com a mesma intensidade.

Há outro elemento importante nessa diferença. Enquanto a inflação energética acelerava na região, o etanol seguia na direção oposta no Brasil: caiu 3,09% em junho, acumulou queda de 3,98% no primeiro semestre e passou a registrar deflação de 0,32% em 12 meses.

O movimento reforça o papel dos biocombustíveis como um dos amortecedores da exposição brasileira aos choques do petróleo, embora não elimine a influência das cotações internacionais sobre os preços internos.

Isso não significa isolamento. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que o diesel A importado correspondeu a 11,86% das vendas nacionais em junho, abaixo dos 26,65% registrados um ano antes. Na gasolina A ocorreu o contrário: a participação externa aumentou de 6,81% para 12,85%.

Produção doméstica de petróleo e presença relevante de biocombustíveis ajudam a amortecer a exposição brasileira. Ainda assim, petróleo, derivados e câmbio mantêm o país conectado ao mercado internacional. Com o Brent novamente acima de US$ 90, contar apenas com o alívio observado nos combustíveis em junho seria prematuro.

Para a política econômica, a questão central é outra: saber se a energia continuará sendo um choque concentrado ou começará a contaminar outros componentes da inflação. Os números da OLACDE mostram que a pressão já ganhou dimensão regional. O comportamento recente do petróleo indica que o risco continua aberto.

* Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em clima e meio ambiente


Textos opinativos não necessariamente traduzem o posicionamento do NovaCana. A publicação visa estimular o debate e proporcionar uma variedade de pontos de vista para os leitores.